This post was written in Portuguese because it was aimed to Brazilian scholars.

Como escrevi no último post, ainda estou começando minha carreira de pesquisador, mas se tem uma coisa que é, no mínimo, irritante é essa discussão sobre Qualis.

Nas reuniões que participo no programa de pós graduação da minha universidade, esse tema é recorrente. Como é o único programa que eu participo, e como é a primeira vez que participo, algumas coisas pra mim são novidades (não necessáriamente interessantes). Por exemplo, inscrições para doutorado são feitas em fluxo contínuo, e a avaliação dos candidatos é feita durante a reunião da pós, pelo colegiado. Ou seja, não tem um grupo de trabalho que avalia as propostas. Basicamente quem esteve presente na reunião tem direito de opinar no candidato. O edital é claro com relação aos requisitos mínimos que o candidato deve preencher para entrar no programa. No entanto, mesmo atendendo os requisitos, os documentos do candidato é discutido (?!). Um tópico recorrente na discussão é que o candidato tem n artigos Qualis X. Ou que tem em submissão um arquivo Qualis X. Ou qualquer coisa Qualis X. O interessante é que a discussão é feita por membros do colegiado que são de áreas diferentes, avaliando um pedido de inscrição de um candidato que pode nem ser da área dos membros presentes. O numero de Qualis X dirige a discussão.

Nas reuniões do programa também se avalia pedidos de defesa (?!). Da mesma forma, se discute se o aluno tem n artigos Qualis X. Nas discussões de qualificação, trancamento, etc.. tamém se discute o Qualis X. Eu inclusive (!) já presenciei discussões em bancas em que os membros discutem o famoso Qualis X, não para fins de (talvez) avaliar o que foi feito, mas, pior, para dirigir o que ainda precisa ser feito (“para o aluno graduar, ainda é necessário n artigos Qualis X”).

Essa discussão é infinita. E não leva a lugar nenhum.

Primeiro, o que quero dizer com n artigos Qualis X? Que o aluno tem, supostamente, bom domínio do problema? Boa capacidade de pesquisa? Liderança? Inovação? Perseverança? Não. Nada disso. O n artigos Qualis X apenas diz que o aluno conseguiu publicar artigos que são mapeado pelo Qualis (basicamente qualquer um). Isso é bom? Não necessáriamente. Isso é ruim? Não necessáriamente. Há alguns conferências/revistas boas com má avaliação no Qualis, mas, pior ainda, há também várias conferências/revistas ruins bem avaliadas no Qualis. E se o aluno tem n artigos Qualis X em revistas predatórias? “Ah”, (alguém pode dizer) “mas basta algum membro do comitê perceber isso e comentar a respeito”. No entanto, como disse anteriormente, muitas das discussões sobre o Qualis X que já participei são feitas por membros avaliando trabalhos de fora da sua área de atuação. Logo, uma possível resposta para a pergunta acima (o que se quer dizer com n artigos Qualis X?), é que o aluno sabe jogar com as regras do jogo. O triste é que as “regas do jogo” estão culturalmente enraizadas e espalhadas como um cancer (ou você nunca ouviu alguem falando do n artigos Qualis X do fulano?).

Por algum motivo, ao longo do meu doutorado, eu era um leitor avido do blog do professor Matt Might (se você não conhece, seja o blog ou a história do prof. Might, pare de ler agora, e vá conhecer). Um dos seus posts, inclusive, viralizou na internet, o The illustrated guide to a Ph.D.. Nesse post, o prof. Might conseguiu, de uma incrivelmente simples, ilustrar qual o propósito de realizar um doutorado (ou uma pesquisa, de maneira mais ampla). De acordo com ele, o motivo é avançar as fronteiras do conhecimento. Simples assim. Perceba que não há menção nenhuma a artigos, revistas, muito menos (bleh) Qualis. Avançar o conhecimento é o que deveria dirigir o interesse em possuir uma vida na academia. Trazer luz ao desconhecido.

Alguém pode perguntar: “mas um artigo Qualis X não poderia também avançar o conhecimento?”. Sim, poderia (mas não necessáriamente). O problema não é ter artigos ter n artigos Qualis X publicados (o prof. Might mesmo tem vários; eu também tenho).

O que drive me nuts é tomar decisão baseada no Qualis X.

O que drive me nuts é discutir trabalho alheiro baseado no Qualis X.

O que drive me nuts é delimitar uma tese de doutorado baseado no Qualis X.

Eu sei que é muito difícil desassociar o Qualis da vida acadêmica. O ponto não é esse. O ponto é discutir a produção dos pares por meio da contribuição científica, e não por mesquinharias como Qualis X. Como mesmo o prof. Might colocou em outro post:

Life is too precious and too fleeting to waste my time on bullshit like tenure. I didn’t become a professor to get tenure. I became a professor to make the world better through science. From this day forward, I will spend my time on problems and solutions that will matter. I will make a difference.

Apenas pare com essa discussão sobre Qualis. Pare.

Por fim: se você é novo em uma área e quer saber quais são os locais mais interessantes para dedicar seu tempo e esforço, esqueça o Qualis. Olhe para plataformas como o CSIndexBr, veja quais são as conferências/revistas indexadas, e gaste seu tempo somente nesses locais.

Categories:

Updated: